quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Cobertor.


Andando pelas vielas de Paris, com a temperatura mais fria para seu corpo que para o de qualquer parisiense e com as gotas de chuva emendado-se as lágrimas, estava o senhor Frainz.
Voltava para casa naquela noite, pensando em como as coisas andavam sem sentido, pensava que devia chegar em casa e encontrar Adeline, tomar seu café forte e doce e participar da sua recepção carinhosa, mas Adeline não estava mais sob o alcance dos seus olhos.
A dor da saudade gritava dentro de Frainz, ele arremeçou o jornal que estava em meio aos seus braços - ali não havia notícias que pudessem trazer sua melhora, ali não estava uma carta vinda de Adeline, dizendo que estaria de volta logo. Sabia que quando chegasse em casa, não a encontraria, aumentou seu caminho, na esperança de minimizar a lembrança, fez-se frio e pensou que em casa normalmente era aquecido pela presença de sua Adeline. Há vinte anos não era essa sua rotina.
- Preciso acabar com isso, nada faz sentindo sem a Adeline. Nada.
Estava tentando jogar tudo fora.
- Acabou.
Recomeçaria sua vida, daria sentido a si mesmo, faria seu próprio café e estaria aquecido com a lembrança de Adeline, apenas a lembrança e não a dor que ela deixou.
 O sol raia em Paris, sua vizinha, uma senhora um tanto cordial, sempre ia cedo a sua casa, levar-lhe pães e perguntar se tudo estava bem, ao entrar esta manhã encontrou o senhor Frainz, sentado em sua poltrona, nu, com o corpo gélido, que sinalizava uma hipotermia. O senhor Frainz se foi, Adeline não pode aquecê-lo. Adeline estava fria a vinte anos.

10 comentários:

  1. que forte bru ! muito lindo *-* adorei as frases tambéem! *-*

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  2. Bruninha, parabéns! Muito bom o texto, a colocação dos pensamentos! Sagitariana retada!!

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  3. Daria um daqueles programas " A vida como ela é". Muito bom.

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  4. Veeei, quando a Academia Brasileira de Letras te descobrir não se esqueça de mim! *-*
    Aaah Bugs, que lindo, tão profundo!
    Adorey :*

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  5. kkkkkkkkkkkkkkkkk, Samila, a rainha do exagero. ¬¬

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  6. É, Frainz não soube ligar com o frio da saudade e então uniu-se a ela.

    Triste, mas bonito.

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  7. Sua frase, resumiu meu texto maravilhosamente bem. Obrigada pela MARAVILHOSA síntese. :D

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  8. Nossa... Que metáfora sobre a dor da saudade em face da perda irreparável!
    Meio dark, mas tinha que ser pra funcionar.
    Parabéns! Muito lindo, Bruna.

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  9. Muito bom. Uma potencial escritora, uma sensibilidade literária à emergir. Parabéns!!

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