terça-feira, 15 de novembro de 2011

Surpresa.


Sentir tudo ao mesmo tempo, a segurança e o medo, a vontade de seguir em frente e a racionalidade de contar o tempo.
Ser sincera e ter receio de parecer superficial. Ver a velocidade invadir o espaço e então navegar tranquilamente nela.
Deveria haver uma lacuna, mas não há. Não há nenhum espaço escuro, é só clareza. Sinto-me mais real, mais perto de mim, isenta de máscaras, livre. E pela primeira vez, minha liberdade não me fez só, nem mal.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Intermitência.



“A sede de ser completo deixou-me neste estado de mágoa inútil.”
(Fernando Pessoa)

O cansaço fazendo uso de meu ser pra estar presente na vida de alguém. Usando minha face pra transparecer sua agonia. Que frustração é essa que me afugenta oportunidades? Que me calçam os sapatos e acorrenta meus pés?
Tenho estado preocupada, com esta minha capacidade de desprendimento e minha consciência me acusa constantemente por isso. Por não criar vínculos, por não ter constituído muitos laços firmes que usem o tempo tão somente para fortalecimento.
Por vezes as idéias de outros sobre mim parecem tão necessárias, noutras é como se não precisasse disso pra me retratar, acho que isso varia mesmo é com a opinião dessa determinada pessoa. É difícil considerar coisas que machucam nosso ego como apenas auxílio evolutivo.
Minha infância gritante surge mostrando a idéia que tem sobre o que realmente sou. Um abandono. O abandono de coisas que me traziam bem e que me tornavam mais madura do que sou hoje. Há um resgate sempre bom quando isso acontece. Afinal não existe fase em que abusamos mais de sinceridade que esta.
Poderia não sentir. Dessentir. Desistir. Até escrever tem sido difícil, zilhões de idéias que passam a não caber no mesmo texto, que vem tão rápido e voltam com mesma velocidade para o infinito espaço inconsciente de mim.
Infinito inconsciente, espaço distante de mim.
O problema é que as vezes sinto que não me sinto.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Reencontro.

Por vezes carregamos a solidão como fardo; em outras ela nos serve de presente.
Toda solidão tem que ser bem aproveitada. Este é o pensamento que me ocorre quando estou só. A música tem esse dom de nos fazer caminhar sobre as suas notas, nos fazendo transbordar de emoções de diversos níveis no mesmo pequeno espaço de tempo.
Perfeição! Soa tão utópico e ainda assim carrega a relatividade nos braços. O errôneo dá brilho ao correto e isso pode ser a perfeição para mim. A superação ou o desenho engraçado que as coisas “errôneas” trazem são recebidas por mim como pedaços magníficos de humanidade. E esta é a perfeição pra mim. Aquele dia em que você esbravejou por ter tomado uma decisão errada, aquela que lhe trouxe posteriormente uma boa surpresa, no fim não lhe parece tão encantador?
Tenho aprendido a olhar o mundo de forma que ele caminhe até mim mostrando seus detalhes, suas surpresas, o talento que tem de nos surpreender com coisas tão simples e que mesmo assim enchem os nossos olhos. Tinha abandonado o mundo porque tive a sensação de que ele tinha me abandonado e isso ocorreu porque havia fechado os olhos para tudo que a natureza e a arte podem trazer pra perto. Reabri os olhos, renasci pro mundo para que ele pudesse renascer pra mim. E agora a arte é parte do meu ser, a natureza grita em meu corpo. É como se eu fosse a arte, como se eu fosse a natureza.
A arte, o som e a natureza num plano só.

sábado, 18 de junho de 2011

Mais de um ano depois.

É uma falta incalculável, um sentimento que destrói todas as muralhas do coração criadas por mim, que arromba todas as portas que eu tranquei pra que você não estivesse presente nem em pensamento. E sob efeito da overdose de notas musicais, sob efeito dos “menus” de filmes, do perfume ardente da comida de casa, eu caminho e tropeço sempre na mesma fase de minha vida. Aquela fase em que o Sol era sempre visto, ainda que por trás das gotas de chuva, aquela fase em que a luz dele refletia na Lua e a trazia para mais perto, ainda que fosse nova.
Era um vínculo, uma ligação que ultrapassava os limites do real, era como se tivéssemos pressa de mostrar ao outro que éramos mais do que mostrávamos ao resto do mundo. Era como a sede incontestável do deserto. E em todas as vezes que nos demos às mãos, elas dançavam a caminho uma da outra, era um toque ensaiado, coisa que elas escondiam de nós.
Foi ruim ter que deixar isso de lado, foi horrível e doloroso ter que lhe deixar em páginas passadas. Mas você escolheu ficar por lá, você escolheu e me torturou até que eu fizesse a mesma escolha que você.
Você está indo embora de verdade só agora, parece que você só agora soltou a maçaneta. É como se você tivesse se escondido, me feito contar o tempo em que esteve fora. Me feito ser tola, esperando sua correria na direção do nosso ponto marcado e não apareceu. Escondeu-se e só agora eu vi que é pra sempre.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Suspiro do descaso.

Todo texto é um fracasso.
Todo medo é descaso.
Toda poeira é marca do tempo.

Tudo que se faz,
Nada que comprometa.
Tudo que falha, nada de não tentar.

A sede de escrever.
A mania desgostosa de acreditar.
A forma sedentária do ser.
A falta de sensibilidade para amar.

O medo de mudar o rumo.
O desejo de desaparecer.
A coragem de enfrentar tudo.
A audácia de continuar existindo.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Como é ser mutante.


Mutante ou mutável?
Qual a sensação de ser estável? Queria ter a alegria de saber como é acordar viva todos os dias. Mas a sensação que tenho é de que cada dia que passo me levantando é o dia posterior a morte de algum outro eu. É como se o mundo viesse todos os dias embalado pra mim, numa embalagem nova e sempre com o mesmo conteúdo. Uma surpresa que depois decepciona. Renovar é sempre bom, mas tem que haver um tempo pra que a renovação não impeça você de saber quem é. Comigo não tem existido esse tempo. Sinto que não posso mais afirmar o que sou ou não capaz de fazer. Tudo fugiu do meu controle. Não sei mais o que ouço, o que quero verdadeiramente a longo prazo. A única coisa que permanece aqui é a certeza de que amanhã serei outra e a vontade de escrever pra catalogar o que fui um dia. Me despedindo toda noite de mim mesma. Abrindo mão de meu próprio espaço pra não morrer. Morrendo hoje pra sobreviver o resto dos dias. Uma morte, uma mutação, uma transformação que dói, mas sempre acrescenta.

sábado, 19 de março de 2011

Espaço.

O que pior que não encontrar espaço pra si, dentro de si?
O que pior que ter que economizar suas horas por medo de não poder mais tarde lembrar de si?
Que medo é este que é capaz de lhe fazer correr na direção oposta do seu próprio ser?
É o medo do vazio; que preenche demais nossas vidas.
É o medo de estar sem alma, que nos afasta da fé, nos afasta da idéia de que exista mesmo um alma.
Mas nunca se sabe quanto cabe no nosso vazio (corpo); nunca se sabe do que podemos completá-lo. O que por vezes parece-nos banal, como olhar-se no espelho no começo e fim do dia, por um motivo que nos parece inexistente, é o que nos mantém, nos ajuda a saber se estamos mesmo aqui, de novo, inteiros.
Nossas ideias não pegam táxi, ônibus, metrô, tampouco andam a cavalo para nos acompanhar, mas estão sempre presentes em nós e não ter tempo pra despejá-las em algum lugar faz com que essa companhia seja traduzida em peso.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Novo nome, mesma identidade.

Quantas pessoas queriam a oportunidade que  estou tendo . Mudar de nome, deletar alguem da sua vida, mudar de pai ou de mãe, ou simplesmente  ter a oportunidade de fazer com que um deles se esqueça de você, ter a chance de dizer que tudo de errado que você fez  tem uma "justificativa" (nunca pensei nisso, não faz parte de mim pensar assim).
E por que estou jogando esta chance fora? Porque se esse alguem simplesmente desaparecesse da minha vida, eu sentiria que toda minha educação e meus princípios estavam desaperecendo tambem. Quanto a mudança de nome, espero de verdade que mais tarde eu consiga encarar isso como uma chance de me renovar, mas nunca de ser outra, porque sempre seguirei a mesma educação e modelo que recebi.
Qualquer documento pode surgir vazio, mas pra mim, aquele espaço enorme sempre terá dono, porque alguem que construiu ou conquistou (não sei qual a melhor palavra a se usar) um coração, não sairá de lá por nenhum papel. É nessa horas que se percebe que talvez nossa ignorância sempre vá nos privar de compreender as leis divinas.
Novo nome, mesma identidade.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Educação.


Marrie estava ao lado do seu menino, olhando para ele e dizendo a si mesma que tinha feito um bom trabalho. Yann a abraçava, derramando inúmeras lágrimas e dizia:
- Mamãe, cada lágrima que cai neste momento é um aplauso meu a senhora. Tenho aplaudido até hoje com meus sorrisos e meus textos, mas desculpe-me a fraqueza deste instante. E se lembre disso como um presente meu.
Marrie foi uma mãe diferente, apesar da sua triste educação, apesar de nunca compreenderem a natureza da pobre menina, cresceu com pensamentos firmes. Guiada por instintos muitas das vezes.
Paralelo ao nascimento do seu menino, veio a morte de um grande amor. E a agora a única coisa que sabia era que daria ao seu filho o contrário da educação que tentaram fazê-la engolir.
Quando completou seu três anos, o pequeno Yann ganhou seu primeiro livro. Era um livro de colorir. A senhora Marrie trabalhava muito para cuidar do seu menino, era uma mãe e uma operária esforçada. Mas mesmo com todo a exaustão do trabalho quando chegava em casa coloria os livros com giz de cera junto ao seu filho.
A senhora Marrie coloriu e escreveu a história do filho sem notar.
Aos poucos os anos foram passando e Yann já conhecia algumas palavras. Ao sair pela manhã, sempre havia um nova história ao lado do seu menino. História que ela escrevera. Posteriormente, foram deixados livros. E Yann os lia porque aprendera a gostar daquela sensação de descobrimento que se tem quando se lê.
Uma noite o garoto acordou, foi até sua mãe e disse:
- Como faço para usá-las? As palavras? Quero escrever, mamãe.
Marrie, levantou-se, pegou uma caneta, abriu a gaveta ao lado da cama e lhe deu junto a caneta, um caderno, com os textos que a príncipio escrevera para o menino e com páginas em branco para que ele escrevesse suas histórias.
 Fitou os olhos do menino e disse-lhe:
- Meu rapaz, agora posso dizer com plena convicção que crescera. Basta lembrar, que não há regra para escrever, não existem conselhos para isso que não partam do "sentir". Sinta Yann. Sinta.
Yann cresceu lendo os textos que escrevia, para sua mãe. Juntos ilustravam aquelas histórias. Decoravam a casa com as idéias uns dos outros. Yann via cada gesto de sua mãe enquanto lia para ela seus contos e olhava como se retirasse dali toda inspiração.
Eram amigos um do outro. Amizade na forma mais leal e sincera.
Chegara a hora de Marrie, Yann terminara seu primeiro livro na noite anterior. Sua mãe estava indo, mas nas ilustrações, na decoração da casa, na intimidade de Yann e em cada palavra sua, ela estava presente, eternizada.
Marrie disse pela última vez:
- Sinta filho, sinta.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Perdão.


Bem, este é um pedido de desculpas. Peço desculpas por aqueles dias em que tiveram o maravilhoso prazer de me encontrar quando levantei com o cabelo bagunçado, tendo que sair apressada para a escola. Pelos dias em que tudo parecia estar bem para os outros e eu queria socar alguém, independente de quem fosse a pobre vítima. Pelas manhãs lindas em que o sol raiava e as flores gritavam seus perfumes e eu parei no ponto de ônibus esperando o mesmo chegar e ao entrar não os disse "bom dia!''. Pelas noites frias em que me recusei dormir ao lado de minha mãe, pelas vezes que eu vi pessoas que precisavam desabafar, falarem comigo e me mantive distraída com o olhar na lua. Pelas vezes que bati a porta do apartamento desejando que ele pegasse fogo enquanto eu estivesse fora. Por desejar sair do lugar em que me acolheram, por dar minha palavra que não iria mais passar por lá. Por me deslechar em coisas importantes. Por querer mostrar que sei algumas coisas e com isso parecer esnobe, por mentir dizendo que não sei fazer coisas simples, por pura preguiça. Por não ter olhado as coisas pelo coração dos outros, por ter machucado pessoas que me amam, por não amar algumas delas. Por mentir. Por persuadir. Por sorrir. Inclusive por sorrir, sorrir nos momentos mais improváveis. Por gargalhar na hora do desespero. Por me desesperar. Por ter pressa pra minhas coisas e enrolar nas coisas alheias. Por conversar demais e por vezes negar uma palavra de conforto. Por contar minha história e não ler nem a sinopse da vida de muita gente. Por negar ouvir outro alguém e conversar comigo mesma em frente ao espelho. Por escrever muito e depois queimar vestígios e acabar não dividindo boas coisas com ninguém. Enfim, o ano está acabando, não sei como estará o tempo no dia 1º , mas prometo que mesmo que muitas destas atitudes continuem e mesmo que o dia pareça o pior para mim, direi sempre 'bom dia a todos'. E um ótimo ano desejo agora.